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DOMESTICANDO A CORRENTE DE JATO
Por Ruy de Salles Penteado*
Recebi do jornalista Luiz Roberto Souza Queiroz, da Rádio Eldorado, o número 2257 da revista "New Scientist", de 23 de setembro de 2000, editada na Austrália, contendo um interessante artigo de Simon Torok, contando dos experimentos de Bryan Roberts relativos à fantástica energia disponível na corrente de jato. Simon Torok é um escritor vivendo na cidade australiana de Camberra e Bryan Roberts é um engenheiro da Universidade de Sidney. Não sei se todo mundo sabe do que se trata a chamada corrente de jato. São ventos que circulam ao redor do globo, de oeste para leste, principalmente entre as latitudes de 25o, 30o e 60o, ao norte e ao sul do Equador, em ambos os hemisférios em altitudes que atingem até 28 km. Esses ventos apresentam-se, no hemisfério austral, no sul do Brasil, na Argentina, no sul da Austrália, na Nova Zelândia. Na realidade, a coisa é mais complicada. Existe uma corrente de jato nas latitudes médias, de 30o a 60o de latitude e uma subtropical, de 23,5o e 30o de latitude, isto é, a começar de São Paulo para o sul (Fonte: WSI Corporation, California Regional Weather Server, CRWS). A idéia de Roberts é a de aproveitar, em altitudes a partir de 4 km até 12 km, através de artefatos adequados, essa enorme energia, com ventos que chegam facilmente a 500 km por hora. São correntes de ar permanentes e constantes. Ele construiu protótipos de artefatos que denominou de "Gyromills", um misto de papagaio (pipa) e helicóptero. Eu ousaria traduzir a palavra por "Giro-Pás". Não são motorizados; pelo contrário produzem energia a ser aproveitada por geradores elétricos. O empuxo ascendente, segundo Roberts, é obtido do próprio vento atuando sobre as pás, de forma semelhante a que ocorre com os "papagaios". Todo esse dispositivo já teria sido testado em túnel de vento pelos idos anos da década de 1980. Vemos aqui que de um lado é verdadeiramente sedutora a idéia de aproveitar tamanha disponibilidade de energia: ventos constantes, beirando os 500 km/h. Afinal, são cerca de 17kW por metro quadrado, contra uns míseros 0,4kW ao nível do solo. No próprio rotor, acionado pelas pás, seria acoplado um gerador de energia elétrica. Por outro lado vejamos algumas dificuldades que, por ora, na minha opinião, permanecem ainda insuperáveis: 1. Como içar esse conjunto todo a alguns quilômetros sobre a terra? A publicação não é clara a esse respeito. 2. O artefato seria preso à terra por cabos de alumínio de alta resistência mecânica, envolvendo os condutores de energia elétrica para a transmiti-la para o solo. O autor fala em cerca de 10MW de potência instalada por unidade. Ora se gerarmos esses 10MW em 13,8kV, por exemplo, teríamos cerca de 500 ampères a transmitir, com fator de potência 0,8 a pelo menos 4km de distância! Qual seria o peso de tudo isso? Não vale a pena nem perder tempo em consultar os manuais de eletricidade para dimensionar esses cabos, de modo que atendam à capacidade de transporte desses 500A e com quedas de tensão suficientemente reduzidas. 3. Além disso, o nosso tranqüilo solo às vezes é vítima de turbulências, furacões, tornados e tempestades, com ventos mudando de direção. Qual seria a estrutura para suportar isso? Com a palavra os engenheiros de estrutura. 4. E as descargas atmosféricas? Os cabos certamente atravessariam, em certas ocasiões, nuvens do tipo cúmulos nimbo, as famosas Cb’s. Como protegê-los, ou aos equipamentos instalados nas extremidades, contra os surtos de tensão? E os ventos cruzados, como também os ascendentes e descendentes por onde passariam os condutores? Como suportá-los? 5. Pretende-se instalar "fazendas de vento", com cerca de 10 máquinas. Com certeza isso exigiria estações transformadoras para tensão mais elevada, pois teríamos cerca de 100MW da "usina". Essas estações seriam pesadíssimas. Os núcleos dos transformadores são de aço silício. 6. Outro fato importante: a corrente de jato, embora permanente, muda de posição constantemente, apresentando trajetórias incertas, essas dependendo fortemente das estações do ano. Como acompanhá-las com os tais artefatos? 7. E o problema da segurança de tráfego aéreo? Ouçamos uma conversa imaginária de um 747 com a torre de controle: "Aqui é o vôo 1020 da American Airlines; desculpe-me, não respondi à sua trasmissão porque dei de cara com uns malditos cabos, de origem incerta e destino não sabido e, ao subir, quase abalroei uma espécie de cata-vento maluco. Entrei num ‘loop’ para não colidir com um avião da Varig, que saía de um ‘glissada lateral’, desviando de uma avião da Air France. Ao fazê-lo, ouvi umas palavras indistintas, parece que falando de minha ascendência, em português". O artigo é longo e se desdobra em outras considerações, mas parei nesse ponto pois parece-me não merecer maior atenção antes que se resolvam aqueles aspectos capitais. Resta, aqui - o que, aliás é fundamental - citar mais essa fonte possível de energia, e fantástica: a energia da corrente de jato, somando-se a tantas outras, como a energia das marés, das ondas do mar, do vento, a osmótica, a geodésica, a solar, a do gradiente térmico das águas oceânicas, conforme a profundidade, e outras mais.
*ENGENHEIRO CONSULTOR, MEMBRO D A COMISSÃO EDITORIAL e dos conselhos deliberativo e consultivo DO INSTITUTO DE ENGENHARIA.
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