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e d i ç ã o 5 3 5 / 1 9 9 9 Hélio Mattar
engenharia
deverá ter espaço de
sobra para crescer
Em
entrevista exclusiva à REVISTA ENGENHARIA, o secretário de Política
Industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior, Hélio Mattar, reafirma posições do ministério sobre pontos
importantes da economia, como dar às empresas nacionais – inclusive
aquelas ligadas à engenharia – condições para competir com as
estrangeiras. Ele afirma também que algumas áreas ainda estão aquém
da capacidade da engenharia brasileira em se desenvolver, e que esses
espaços devem ser ocupados. Segundo
Mattar, o ministério chefiado por Alcides Tápias está atento a essa
questão, tanto que selecionou a cadeia produtiva da construção civil,
juntamente com sete outras, "por sua importância em termos de geração
e ocupação de renda, desenvolvimento regional e baixo impacto na balança
comercial". A
vasta experiência de Hélio Mattar, não só como empresário mas também
como membro atuante em diversas entidades representativas do sistema
produtivo ao longo de sua carreira, faz dele um eficiente interlocutor
entre Brasília e os setores que formam as cadeias de produção
atualmente. Hélio
Mattar, no cargo desde janeiro deste ano, é formado pela FEA –
Faculdade de Economia e Administração - USP e empresário bem
sucedido. Atuou como conselheiro em mais de uma dezena de empresas,
entre elas: IPT, EMAE, EPTE, CESP, CPFL, Comgás, Eletropaulo e outras,
fundações e associações de classe, destacando-se em seu currículo
funções como a de conselheiro da Fundação Abrinq, diretor do CIESP
(Centro de Indústrias do Estado de São Paulo) e fundador e coordenador
do PNBE – Pensamento Nacional das Bases Empresariais. REVISTA
ENGENHARIA - De que forma o senhor avalia, no
momento, a situação da engenharia brasileira como detentora de
tecnologia e geradora de empregos? Como poderá se desenvolver a efetiva
participação deste segmento no crescimento da economia e dos benefícios
sociais nos próximos meses? HÉLIO
MATTAR - Todos sabem que a engenharia
brasileira realizou um grande salto tecnológico desde a década de 50,
tendo se colocado à altura e tido ativa participação no
desenvolvimento do País neste período. Ela pôde desenvolver
tecnologia própria em inúmeras áreas, em nível internacional, o que
se traduziu e ainda se traduz na exportação de serviços de construção
pesada, no desenvolvimento de produtos e serviços de telecomunicações,
na exploração de petróleo em águas profundas, para citar apenas
alguns casos. Existem
áreas, no entanto, que ainda estão aquém da capacidade da engenharia
brasileira em se desenvolver, havendo, portanto, espaço para que isto
ocorra. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior está atento a esta questão, estamos procurando entendê-la
corretamente para procurar dar resposta adequada. Há
novas áreas com potencial de rápido crescimento, com um grande número
de oportunidades promissoras, para as quais as empresas brasileiras
devem se voltar, pois têm capacidade para tanto dentre as quais eu
citaria, à título de exemplo, as atividades de exploração de petróleo
e gás. Em
setores mais tradicionais, há muito ainda a ser feito nas áreas
habitacional e de infra-estrutura, nas quais certamente a engenharia
brasileira tem um papel central a cumprir. REVISTA
ENGENHARIA - O que o senhor acha da qualidade
tecnológica da construção civil nacional? No que ela pode melhorar? HÉLIO
MATTAR - Apesar de inúmeros casos de empresas
inovadoras em termos de processos de construção e de insumos e
produtos de acabamento com alta qualidade produzidos no País, estes são,
infelizmente, ainda exceções dentro de uma cadeia produtiva –
conceito mais amplo e analiticamente adequado para uma política
industrial – com milhares de empresas, de grande importância para o
emprego e relevante participação no PIB. A
construção habitacional ainda é realizada basicamente com os mesmos
produtos e métodos há muitas décadas. Os índices de produtividade são
muito baixos quando comparados com países de nível de renda
equivalente ou superior ao nosso, e há que se reconhecer que isto não
pode ser atribuído somente à qualificação da mão-de-obra. É também
uma questão de gestão e métodos de produção, que têm muito espaço
para melhorar de forma a baratear o produto final. No
que tange aos insumos da indústria da construção, o Governo Federal
vem desenvolvendo com a participação do nosso Ministério, no âmbito
do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade - PBQP, um trabalho
conjunto com fabricantes e o INMETRO, tendo como meta o atendimento de
90% destes insumos às normas de conformidade técnica até o ano 2002,
o que certamente será uma grande evolução. REVISTA
ENGENHARIA - Como
o setor poderá atingir um patamar de desenvolvimento baseado no tripé
tecnologia/crédito/mercado, essencial para se criar um ambiente favorável
ao seu crescimento? HÉLIO
MATTAR - Como disse, no meu entender há muito
o que fazer quanto à evolução tecnológica, sua disseminação e
utilização, cabendo nesta questão um papel ao Governo, que está
procurando cumpri-lo e também ao setor privado, que deve
permanentemente buscar obter ga-nhos de produtividade e assim produzir
com qualidade e menor preço. Isto é especialmente relevante em nosso
País uma vez que ainda enfrenta grandes carências habitacionais. O
setor privado e o Governo também devem trabalhar juntos e há esta
preocupação de nossa parte, no sentido de se viabilizar um novo modelo
de financiamento, já que o tradicional SFH encontra-se superado. Nesta
linha, entendemos como uma evolução o SFI, instituído em novembro de
1997, e inovações que trouxeram, como a alienação fiduciária de imóvel
e a criação da figura das companhias securitizadoras imobiliárias. Por
uma infeliz coincidência, no mesmo mês tivemos a crise da Ásia e
depois a da Rússia, o que levou às alturas as taxas de juros internos,
pois este modelo de financiamento pressupõe a existência de um
ambiente macroeconômico mais estável do qual, agora, estamos nos
aproximando e que propiciará também uma retomada na demanda. Ademais,
várias decisões e episódios ocorridos ao longo dos trinta e cinco
anos de funcionamento do SFH legaram também uma atitude cautelosa ao
potencial comprador e um comportamento reativo do agente financeiro
sobretudo para financiar a fase da construção do imóvel. Creio ser
esta uma questão importante a ser superada, possivelmente com a
disseminação de um seguro para o término do empreendimento, para que
todo o potencial de mercado possa se realizar. REVISTA
ENGENHARIA - Um
recente estudo feito para a Comissão da Indústria da Construção
Civil da Fiesp, da qual faz parte o Instituto de Engenharia, mostra que
o impacto de toda a cadeia produtiva da construção civil no
desenvolvimento sustentado do País, é responsável por uma taxa de
14,8% do PIB nacional, demonstrando ainda que de cada 100 empregos
diretos gerados no setor, imediatamente podem ser criados 285 empregos
indiretos. No entanto, segundo o Sinduscon, o nível de emprego na
construção civil no Estado de São Paulo apresentou em junho uma queda
de 3,63% em relação a maio, equivalente ao fechamento de 14.700 postos
de trabalho em apenas um mês. O governo está considerando esta
realidade? HÉLIO
MATTAR - Sem dúvida nenhuma, o Governo está
atendo a esta realidade e neste sentido tem trabalhado em várias
frentes. Uma, por intermédio da CEF, o principal instrumento de que
dispõe para o setor, disponibilizando, como anunciado no dia 13 de
outubro passado, recursos da ordem de R$ 800 milhões para capital de
giro de forma que as construtoras possam descontar recebíveis de sua
carteira de clientes, ou ainda mediante recente lançamento do PAR -
Programa de Arrendamento Residencial, voltado para pessoas com renda
familiar de até R$ 800/mês aproximadamente, que já começou a operar
com um fundo de R$ 3 bilhões, composto por recursos orçamentários e
do FGTS. Outra
frente na qual o governo tem atuado envolve decisões do Conselho Monetário
Nacional, como as detalhadas na Resolução nº 2.623, de julho último,
com o intuito de estimular os agentes financeiros a direcionar mais
recursos ao financiamento habitacional. Além do trabalho que vem sendo
desenvolvido dentro do PBQP que já mencionei, o Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior selecionou a cadeia
produtiva da construção civil, juntamente com sete outras, por sua
importância em termos de geração de ocupação e renda,
desenvolvimento regional e baixo impacto na balança comercial. Com
estas cadeias produtivas iniciamos um trabalho envolvendo outras áreas
do Governo Federal, a representação empresarial e sindical no sentido
de chegarmos a um diagnóstico convergente das questões mais relevantes
e estabelecermos metas desafiadoras, de curto, médio e longo prazos, e
acompanhá-las no âmbito do Fórum de Competitividade que pretendemos
instalar, no caso da Cadeia da Construção Civil, no início de
dezembro. Como
se pode depreender pelo elenco de iniciativas, o Governo Federal está
muito atento e trabalhando com a dedicação que a questão merece... |
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