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Álcool-Motor: COMBUSTÍVEL INESGOTÁVEL, Quase não polui E é
100% brasileiro
POR ALEXANDRE SERPA ALBUQUERQUE* 1. Como é de todos sabido, o ar da cidade de São Paulo apresenta surtos de má qualidade. Isso quer dizer que o ar pode prejudicar a saúde da população por afetar o sistema respiratório. A causa disso são os POLUENTES, que são gases e partículas sólidas que se encontram em suspensão no ar. Esses poluentes ficam nas camadas mais baixas da atmosfera (algumas centenas de metros) e são a causa da mudança de cor do céu de azul-anil para cinza amarelado. Os ventos dispersam os poluentes e as chuvas os arrastam. No inverno, quando as chuvas são poucas, os surtos de má qualidade aparecem com maior freqüência do que no verão - época das chuvas. 2. Uma das fonte de poluentes são os gases emitidos pelos tubos de escapamento dos automóveis, ônibus e caminhões. São Paulo tem 5,2 milhões de automóveis e 11.000 ônibus. A maioria dos caminhões circula pela marginal do Tietê e pelas avenidas que levam à Anchieta e Imigrantes para fazer conexão com o porto de Santos, o maior do Hemisfério Sul. As fábricas, pela fumaça expelida por suas chaminés, também poluem o ar, principalmente no ABC. Mas uma respeitável fonte de poluentes são aqueles 5,2 milhões de automóveis. 3. Para combater a poluição do ar, principalmente no inverno, seria preciso reduzir a quantidade de automóveis em circulação pelas vias urbanas. Para conseguir uma redução, embora parcial, o governo do Estado instituiu por lei o RODÍZIO de automóveis, quando 20% deles são impedidos de circular durante os dias úteis do inverno. A Prefeitura da Cidade, para reduzir o congestionamento de tráfego nas horas de pico da manhã e da tarde, também impediu a circulação, no verão, por três horas pela manhã e mais três horas à tarde. Mas nem todos cumpriram a lei (houve casos em que só 18% o fizeram), o que quer dizer que, na CIDADE DO TRABALHO, dois por cento deles preferiram pagar multa e ir trabalhar, ganhando mais do que o custo da multa. O rodízio é uma medida paliativa, pouco serviu para reduzir a emissão de poluentes, mas serviu para conscientizar a população da necessidade de combater a poluição. A redução da emissão foi inferior a 18%, porque táxis, caminhões e ônibus circularam normalmente. A meta que se deve perseguir é reduzir a produção de poluentes superiores àqueles 18%. Como fazer? 4. Retirar das ruas os 5,2 milhões de automóveis é impossível. Incentivar o uso de bicicletas - idéia que chegou a ser lançada! - numa cidade cheia de ladeiras - é ridículo. Mas é possível pensar em retirar das ruas uns três milhões de automóveis; aqueles que, em sua maioria, transportam uma só pessoa: os executivos que se dirigem ao trabalho. Há, para eles, espalhados por toda a cidade, um grande número de ESTACIONAMENTOS. Então, para retirar automóveis das ruas será necessário criar um eficientíssimo serviço de transporte público. Mas esse transporte não poderá ser feito por ônibus poluentes por duas razões: primeira - um ônibus polui três vezes mais do que um automóvel; segunda - eles teriam de ser tantos que não caberiam nas ruas. Os trolebus não poluiriam mas também não caberiam nas ruas. A solução é o metrô, subterrâneo ou elevado. Este último é mais barato para construir, mas anti-estético. Seriam necessários quilômetros de linhas, formando uma densa rede interligada. O PITU (Plano Integrado de Transportes Urbanos) prevê 283km em 20 anos! 5. A solução viável é a substituição da gasolina pelo ÁLCOOL como combustível de automóveis, ônibus e caminhões. É uma solução que levará algum tempo para se realizar, mas é imprescindível! O álcool, como combustível, tem outras vantagens, além de praticamente não poluir: 1) é um combustível perene, que não acabará quando se esgotarem as jazidas de petróleo; 2) não exigirá grandes distâncias de transporte, como ocorre com a gasolina, pois pode ser produzido em usinas espalhadas por larga parte do Brasil; 3) não desgasta os motores, como demonstra este fato: num velho táxi a álcool, disse o motorista seu proprietário, que o carro já tinha mais de UM MILHÃO de quilômetros - e isso com o velho motor continuando a ter um desempenho como se fosse novo, como era fácil notar; 4) quando convertidos para queimar álcool, os motores a gasolina passam a poder desenvolver maior potência; 5) o custo do álcool, por quilômetro rodado, será inferior ao da gasolina; 6) reduz, para mais de metade, o consumo de óleo lubrificante; 7) o BAGAÇO DE CANA e o VINHOTO, subprodutos da produção do álcool, são integralmente utilizáveis: o primeiro como combustível para geração de eletricidade ou como matéria-prima de vários derivados; o segundo é usado na irrigação dos canaviais, restituindo ao solo parte dos compostos químicos que o crescimento da cana retira dele - nenhum lixo industrial; 8) sobrepujando tudo isto, é um combustível INTEGRALMENTE BRASILEIRO. Alguns tipos de motores não terão problemas com a natureza do combustível. O controle eletrônico de injeção está tendo um bom desenvolvimento de tal modo que irá permitir que o motor possa consumir tanto gasolina como álcool. Como se vê, não é só no Brasil que se considera o uso do álcool! Se desenvolvermos um plano AUTOMOTIVO-AGRÍCOLA bem engendrado, ele irá poder dar à indústria condições para produzir uma alta porcentagem de veículos movidos a álcool (já chegou a 96% anos atrás). Se isso for adiante, será possível que parte dos milhões de veículos movidos a gasolina e diesel sejam convertidos para queimar álcool. O álcool de que se trata é o ÁLCOOL ETÍLICO, ou ETANOL (C2H5-OH) e é produzido tendo a CANA-DE-AÇÚCAR como matéria-prima. Sua produção chegou a atingir 90 bilhões de litros por ano e poderá atingir volume muito superior a esse com o desenvolvimento da agrobiologia. 6. O gás de escapamento de um motor a álcool contém, além de vapor de água, apenas óxido de carbono (CO) e óxidos de nitrogênio (NOx). O dos motores a gasolina e a óleo diesel contêm, além desses: óxidos de enxofre (SOx) e micro-partículas sólidas de carbono (mP). São esses os poluentes que infectam a atmosfera de São Paulo. As micropartículas - que formam a horrível fumaça preta dos caminhões e ônibus a diesel - são invisíveis e são inaladas, produzindo danos nas vias respiratórias. As quantidades relativas contidas nos gases de escapamento são as seguintes: 7. O álcool, como nada contém de enxofre e de partículas sólidas não agride a saúde como faz a gasolina e, em dose muito maior, o óleo diesel. Estudo feito na Escola Politécnica da USP mostrou que, em São Paulo, quando a porcentagem de carros a álcool era de 65% ocorriam cerca de 9 mortes de idosos por dia, causadas por infecções pulmonares; quando a porcentagem de carros a álcool caiu para 45%, essa quantidade de mortes quase duplicou: passou para 16. 8. Em 14 de novembro de 1975 o governo brasileiro levou a termo um plano para a produção de motores a álcool e produção em grande escala de álcool anidro. O plano foi denominado PRÓ ÁLCOOL. Iniciada a produção, os motores a álcool foram paulatinamente tendo sua qualidade aumentada para, poucos anos depois, igualarem (e até superarem) o desempenho dos motores a gasolina. O motor projetado para queimar gasolina (o chamado ciclo "Otto") tem características diferentes dos projetados para queimar álcool. Aquele contínuo desenvolvimento teve um fim quando o Pró Álcool foi por água a baixo. De tempos em tempos aparecem na imprensa sugestões para ressuscitar o Pró Álcool, como a exigência de que os carros oficiais sejam movidos a álcool. Se isso acontecer haverá campo para mais desenvolvimentos. Ter conseguido fabricar motores a álcool de desempenho superior aos dos motores a gasolina de mesma cilindrada, foi uma façanha tecnológica inteiramente brasileira e, nos anos oitenta, única no mundo. Agora os Estados Unidos e a Alemanha já viram a necessidade de usar o álcool como combustível, não pela periódica arrazoada do esgotamento das jazidas de petróleo, mas sim pela grande emissão de poluentes causada pelas suas enormes frotas de automóveis. Nos Estados Unidos, por exemplo, desenvolveram motores para queimar álcool metílico, ou METANOL (CH3-OH), obtido a partir do milho, processo muito mais caro que o brasileiro a partir da cana. Aliás, o metanol é o combustível da Fórmula Mundial (ex-Indy) de carros de corrida. Os motores diesel (o chamado "ciclo Diesel") também podem ser convertidos para queimar etanol, por um processo desenvolvido e patenteado em 1977, pela USP de São Carlos, SP. É, portanto, possível reduzir a fortíssima emissão, por ônibus e caminhões, de partículas sólidas e demais gases poluentes. 9. A produção do álcool é levada a efeito paralelamente à produção de açúcar nas usinas de cana. Há no Brasil 324 usinas de cana-de-açúcar, das quais 133 em São Paulo. Na década passada, no auge do Pró Álcool, também havia usinas montadas para produção exclusiva de álcool, as ditas USINAS AUTÔNOMAS. O lado agrícola também se desenvolveu, aumentando a produção de cana por hectare, de modo que, por safra, a produção de álcool passou de 3.800 litros para 6.000 por hectare. Também se tornou comum o uso do vinhoto para a irrigação dos canaviais, e se iniciara, em algumas usinas, o uso integral do BAGAÇO DE CANA que é o que resta da cana depois que esta é prensada nas MOENDAS para a extração do CALDO. 10. Toda esta tecnologia criava uma grande oferta de empregos por todo o Brasil. Milhões de novos postos de trabalho seriam criados se ela continuasse a se desenvolver. Uma profusão de MINI USINAS (criação da USP de São Carlos) poderia se espalhar por quase todo o território brasileiro, o que reduziria drasticamente o atual transporte de combustível por caminhões diesel a distância que atinge até 3.000km. Ainda mais: reduziria a dívida externa do Brasil por permitir redução da importação de petróleo. 11. Mas tudo isso, que englobava os campos tecnológico, econômico e financeiro, ruiu completamente! O Pró Álcool durou cerca de 15 anos. Perdemos a nossa capacidade de dispor de combustível nacional inesgotável, isento das oscilações de preço do petróleo e que tem mais uma grande qualidade nunca lembrada: a de aumentar o teor de oxigênio na atmosfera, decorrentes da fotossíntese da cana-de-açúcar! Má gestão financeira, conflitos econômicos e no mercado automobilístico internacional, a indústria petrolífera que não quer perder mercado, puseram por terra essa tecnologia que tornara o Brasil fonte para ser imitada nos meios automobilísticos mundiais. A Scania (sueca) produziu ônibus e a Mercedes (alemã) produziu caminhões movidos a álcool. 12. Tudo o que fica dito serve para mostrar que há real possibilidade de se converter boa parte da frota nacional de automóveis, caminhões e ônibus para consumir álcool, reduzindo a emissão de poluentes nos grandes centros urbanos, melhorando o bem-estar social e as finanças do Brasil e criando mais uma fonte de orgulho para os brasileiros. A técnica aí está, o que falta é a famigerada vontade política.
*Engenheiro civil, participou do plano de "mini usinas" de álcool da USP - São Carlos, coordenou o projeto "vinhoto dutos" para a ABNT no Laboratório L. A. Falcão Bauer e conta com vários artigos publicados. |
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